quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Uma Análise sobre Veículos Clássicos ou Colecionáveis em nossa atual realidade - parte II

Nesta matéria, fiz um apanhado de alguns veículos clássicos(foco em carros acessíveis e não "clássicos de leilão") ou apenas "futuros clássicos", na cidade de São Paulo, Brasil em Fevereiro de 2015, que de certa maneira quebram paradigmas dependendo de como se analisa. Alguns deles, mesmo em tempos de escassez de bons exemplares e bons preços, demonstram o contrário.

Rejeitado na crise do petróleo, o maior aspirante a Clássico Definitivo no cenário nacional é sem dúvida o Dodge Charger (indiferente se standard, LS ou R/T). Em uma década, seu valor subiu aproximadamente 300% e não são casos pontuais, é uma tendência de mercado que alimenta uma efetiva demanda. É natural achar alto o valor de R$ 120.000,00 por este 1976 aparentemente bem restaurado, pode-se inclusive estabelecer comparações com outros veículos da época importados. No entanto, dada sua escassez, importância desse automóvel em nosso cenário industrial (que muitas vezes é o motivo da compra de um aficionado) e principalmente estimativa de custo de um restauro bem feito, colocam rapidamente a conclusão inicial em xeque-mate.
http://carro.mercadolivre.com.br/MLB-619211459-dodge-charger-rt-1976-_JM

Talvez pela premissa de que automóveis esportivos sempre tenham precedência em termos de valorização, sem contar que em 15 anos de produção teve um número de unidades bem mais extenso, o Ford Galaxie demorou bem mais para "decolar". Hoje os remanescentes em bom estado estão subindo de preço à plenos pulmões. Às vezes, nos deparamos com preciosidades como este Galaxie 500 1974, por preços ainda convidativos e mais do que justos pelo que representam, neste caso R$ 48.000,00.
http://seculo20antigos.com.br/2014/10/08/maravilhoso-galaxie-500-74-placa-preta-impecavel/

Ao contrário dos nacionais de luxo que mal passaram para a década de 1980, o Opala demorou mais para figurar entre os futuros clássicos. Durante muitos anos, por valores relativamente baixos se encontravam bons exemplares. Hoje isso mudou e a escalada de preços sobe vertiginosamente, sendo tão caros quanto os "muscles" brasileiros se em versões raras como os SS 4 portas do início dos 70, os SS 6 em geral e alguns cupês com 1/2 teto vinílico "Las Vegas". Já a versão Diplomata esteve cotada como carro de luxo "definitivo" por aqui pra quem viveu os anos 80. Nos dias atuais, o que se encontra são carros em estado lamentável, convertidos à gás, reformados e longe dos padrões de originalidade. Encontrar um exemplar sem restauração, pintura ou qualquer outra intervenção, ostentando todos os itens originais de época como o belíssimo 89 Automatic-4 da foto, é um verdadeiro achado. Longe de ser contudo um futuro clássico acessível, o preço de R$ 39.000,00 não pode ser categorizado como equivocado, dificilmente alguém teria grandes prejuízos com esse carro.
http://www.webmotors.com.br/comprar/chevrolet/opala/4-1-diplomata-se-12v-alcool-4p-automatico/4-portas/1989/12015121

Sem dúvida que a carroceria W201 foi a experiência das mais felizes que a Mercedes Benz teve em se tratando de veículo compacto para o padrão da marca, logo em sua estréia diga-se. Exponencialmente mais caras e desejadas são as versões esportivas 190E 2.3-16 e 2.5-16 by Cosworth, a versão 1993 de despedida LE (US Market 1400 unidades) com motorização 2.3 e 2.6 em cores exclusivas e por fim a versão 2.6 com o tradicional 6 em linha da marca. A unidade anunciada é uma dessas remanescentes em aparente estado impecável e elegante pintura tom sobre tom, embora hajam erros de denominação no título do anúncio e na atribuição dada à disposição de cilindros do motor. O preço 55 mil, é relativamente alto, mas deve valorizar ainda mais daqui por diante. *Tanto neste exemplo como em alguns outros, o proprietário faz o valor flutuar como na Bolsa de Valores, dias após a matéria, valor alterado para 65 mil reais.
 
Para o mercedista "iniciado", eis aqui uma bela "Dallas", carro até hoje longe da preferência de alguns colecionadores em função principalmente da mais desejável "Pagoda". Mas como os preços desta última se elevaram a níveis impensáveis, a sucessora volta a ganhar holofotes. Excelente para passear e atingir velocidades altas com seu poderoso V8, confortável, o carro não chega a ter comportamento verdadeiramente esportivo mas esbanja charme. O preço também alto (85 mil), está no entanto na média de mercado (se é que ele existe); deve subir ainda mais.
 
Tido como o mais importante fora de série nacional, o Puma Vw é sempre desejado e valorizado quando na sua 1ª ou 2ª versão, a chamada Tubarão que foi até 1975. Não possuía as janelas traseiras, em seu lugar guelras que lhe renderam o apelido, além claro de outros pormenores. Houve tempo, próximo à virada do milênio, que esses carrinhos custavam menos do que certas versões de Fuscas. O preço aumentou principalmente em função da diminuição da oferta de exemplares realmente bons e originais. O do anúncio, 1974 está cotado em 39 mil mas tem bons predicados.
 

Nem sempre o mais desejado é o melhor, a não ser que a opinião dos outros seja mais importante do que a sua. Como não é meu caso, falo sem medo de errar que o melhor carro esportivo fabricado pela VW no final da década de 80 não era o alardeado e cotado hoje a preços absurdos, Gol GTI. Seria difícil manter por muito mais tempo a carroceria do Passat em linha em termos estilísticos, mas a verdade é que o carro foi descontinuado em sua melhor fase. O "canto do cisne" foi a derradeira versão 1.8 GTS Pointer. Esse carro andava tanto quanto seu irmão famoso de cor exclusiva e motor injetado, só que fazia muito mais curva. Aliás, esse carro era tão bem acertado dinamicamente já em suas versões de rua que seria referência ainda hoje nesse quesito. Massacrado por proprietários "cupins de ferro", virou sinônimo de carro de "rachador", nunca emplacou como possível futuro clássico. Agora, reais remanescentes e até alguns bem restaurados começam a chamar a atenção. O da foto, não chega a ser uma "máquina do tempo" mas é um carro aparentemente honesto por 19 mil.
 
O Fusca deve ser considerado como clássico definitivo, em primeiro lugar porque ele já alcançou esse status mundo afora, ou seja não é um aspirante como tantos outros. Quem não teve sua própria história de vida ligada a um VW desses é porque provavelmente tem menos de 20 ou 25 anos, já que ele foi figura mais que presente em nossas ruas até os meados dos 90. Fora isso, é uma senhora aula de como iniciar a vida colecionista sem grandes sustos. As versões  são inúmeras e com as mais distintas variações de valor, estamos falando de um carro que atravessou 5 décadas. Apesar disso, ele evoluiu consideravelmente nesse tempo, principalmente na parte mecânica e dinâmica. Mesmo sem termos sido contemplados com as últimas versões mundiais 1302 e 1303 com as muito melhores suspensões dianteiras McPherson, quem já dirigiu boa parte dos Fuscas brasileiros sabe bem as diferentes características de cada um. Por exemplo, os 1200 de 59 a 66 são carros prazerosos no sentido de conviver com cheiros, sons e comportamentos de outrora, mas absolutamente inviáveis de acompanhar o fluxo de uma via expressa nos dias que correm. Os Fuscas Itamar, apesar de terem evoluído em certas coisas, são tidos por muitos como inferiores em alguns detalhes de acabamento aos da década de 80. Estes últimos eram bons carros, mas jamais darão a mesma sensação de guiar  um Fuscão 1500 do início dos 70, na minha opinião o melhor da saga. Outra versão interessante é a 1300 "Tigre" de 67 a 1970(1a fase). Seu motor já não sofre do problema relatado dos 1200 cm3, além disso, sua carroceria e detalhamento possuem quase todo o charme de seus ancestrais "Split" e "Oval" da década de 1950...de preços inenarráveis. Além disso a manutenção de sua mecânica é simples, não faltam peças em comparação aos mais antigos.
Hoje já é difícil achar um carro desses em estado realmente louvável. Muitas vezes, restaurações nem tão rigorosas botam tudo a perder, principalmente na questão da tapeçaria, tanto que muitos apregoam a manutenção da tapeçaria "sem reformas" por mais que esta esteja deteriorada. O simpático Bege Nilo do anúncio está impecável, por dentro e por fora, todo original, sem reformas equivocadas nem os famigerados sobrearos, faixas brancas, latas nos para lamas, galões de cor não original ou ainda dos "porta trecos de bambú". É o tipo do carro "pronto" em termos de não ter que resgatar nada, apenas mantê-lo. Isso pode não ser uma coisa tão clara a quem não tem certa vivência com esses veículos, mas a longo prazo fazem toda diferença. Exemplar digníssimo, por 18 mil.
 
Se a vontade é ter um clássico oriundo da linhagem de Ferdinand e Butzi mas o lado racional falar mais alto, porque não apostar numa ainda não sobrevalorizada 996? Não falando em modelos pré 1974 que são impensáveis a não ser que se tenha uma boa experiência com clássicos e sobretudo uma condição financeira muito mais do que especial, levando em consideração a dispendiosa manutenção quase intrínseca às menos caras 930 e os valores altíssimos já praticados pelas 993 air cooled, pensar nas 911/996 e até 997, é quase como ouvir o preâmbulo da solução. Além do mais, falamos de carros mais atualizados, utilizáveis com menos despesas de manutenção (via de regra)e a garantia de ser um futuro clássico. Notem que belo exemplar 1998 de cor sóbria, pouco rodada e de câmbio mecânico e tração apenas no eixo traseiro, como uma 911 deve ser. O valor pedido de 145 mil, para o chamado "padrão Brasil", é mais do que justo, coloca em xeque outros carros mais caros e menos competentes que ela inclusive.

 
Carro responsável por nivelar "por cima" aquele conceito de que no Brasil só se faziam carroças, alardeado por um tal presidente da aurora dos anos 90. "Absoluto" era seu merecido slogan, símbolo de uma época, não lembro de nenhum outro salto tecnológico/dinâmico tão grande dentro da história de nosso mercado, a não ser mirando nos exemplos estrangeiros que aportavam por aqui naqueles mesmos anos. Esse carro oferecido à partir de 1992, na versão CD, com motor 6 cilindros de 3 litros importado da Opel alemã, era notável, excelente relação r/l e portanto suavidade de funcionamento. Seus números de potência e torque (165 cv a 5800rpm e 23,5 Kgf.m a 4200rpm) não traduziam o prazer de condução, na minha memória, superior ao sucessor (motor 4.1 litros do Opala repaginado pela Lotus). Esteticamente, foi a versão mais imponente e harmônica, com o passar dos anos desintegrou-se nas mãos dos futuros proprietários. Pouquíssimas unidades remanescentes em estado de originalidade e conservação dignos de nota. Este automático por singelos 25 mil, é um deles.
http://www.webmotors.com.br/comprar/chevrolet/omega/3-0-mpfi-cd-12v-gasolina-4p-automatico/4-portas/1993/12201962

A Alfa 2300 sempre figurou entre os carros mais caros e requintados enquanto esteve em nosso mercado. Expoente em tecnologia, a Alfa Romeo aqui, desde seu estabelecimento em Xerém-Duque de Caxias, chancelando a estatal FNM(criada sob o Plano de Metas e GEIA) que produzia sob licença a chamada Alfa JK 2000 (depois 2150, praticamente idêntica à Berlina fabricada na Itália), sempre foi referência nesse quesito. Numa época aonde mal se pensava em freio à disco nas rodas dianteiras dos carros mais caros, a 2300 oferecia disco nas 4 rodas, ao invés de arcaico comando de válvulas no bloco, havia um duplo comando no cabeçote(reinterpretação do bialbero), câmaras de combustão hemisféricas, câmbio de 5 marchas dentre outras coisas. De certa forma, em termos de carroceria a 2300 pagou o preço da matriz italiana não aprovar a produção da Alfetta por aqui (carro fonte de inspiração para a 2300 porém um pouco menor, mais leve, de linhas harmonicas e dinamicamente superior), o desenvolvimento foi feito sobre a mesma planta fabril (anos mais tarde sendo repassada ao controle Fiat já que a mesma comprara a Alfa na Itália) e também sobre a plataforma "JK", com alguns incrementos. O carro agradava, era espaçoso mas um pouco desproporcional principalmente nas linhas traseiras. Atingia um estreito nicho de mercado que buscava por refinamento técnico e dinâmico. Perdia para a concorrência de alguns automóveis da época analisando-se itens isolados como exemplo conforto e fiabilidade. Por ser de maior dimensão num tempo que a Alfa já não mais fazia carros tão grandes, chegou até a ser exportada para países da europa, denominada Alfa Rio, mas não conseguiu se estabelecer.
Até hoje não conseguiu se firmar como um real clássico nacional, mas isto está mudando, seja pela escassez do modelo, seja pelo entendimento de que ela é uma Alfa mundialmente única (requisitada inclusive por colecionadores da marca mundo afora). Contra a maré, pesam os fatos de que a manutenção especializada do modelo não é difundida como outras marcas (quem tem antigos sabe que know how específico é sempre importante) e algumas peças mecânicas não são intercambiáveis com modelos italianos, tendem a extinguir-se, sem falar em peças de acabamento. Portanto adquirir um carro desses para restauração, é má idéia. Exemplares como a 74 (ainda Xerém e não Betim, ou seja, ainda uma Alfa, "Alfa")do anúncio por preço razoável de 30 mil, são quase impossíveis de se achar.
http://carro.mercadolivre.com.br/MLB-619785843-alfa-romeo-2300-para-colecionador-_JM#redirectedFromParent

Se a idéia for gastar relativamente pouco por um futuro clássico quase garantido, como a belíssima Alfa 156 desenhada pelo renomado Walter de Silva, melhor que seja agora, enquanto restam alguns poucos exemplares bem mantidos (já que a maioria se afunda em deterioração em parte pelo péssimo suporte que a Fiat deu à marca no Brasil). Dinamicamente e mesmo em termos de sensações ao volante, nada como uma Alfa 164 e seu V6 Busso, seja 12 ou melhor ainda 24V. Esses carros tem desempenho realmente surpreendente mas a manutenção beira o intangível, seja em virtude de peças, seja principalmente pela mão de obra inexistente para essa refinada mecânica que necessita inclusive de amplo conhecimento literário e de ferramental específico. Já a mais difundida mecânica dos 4 cilindros "Twin Spark", motores muito bons em médios e altos regimes, equipou diversos modelos da marca vendidos aqui (145, 155, 147 e 156), além disso possui ampla equivalência de peças com mecânicas Fiat (Brava, Marea e até Palio). Fazendo manutenções preventivas e mantendo um estoque de peças de reposição é carro para muitos anos, com piacere de guida desde que se ature a suspensão, de curso curto, que apesar de não ser demasiadamente dura, nunca recebeu a devida adaptação para nosso solo lunar, traz certa sensação de aspereza e pouca robustez. Em asfalto bom contudo, é uma delícia. Em termos estilísticos é a vanguarda absoluta de sua época. Poderia tranquilamente ser produzida ainda hoje com pequenas readequações. Acho até que "envelheceu menos" que a sucessora e já descontinuada 159. Achar um bom exemplar depende de conhecimento específico com esses carros e muito mais do que uma análise visual, a dinâmica é essencial. Dada a baixa probabilidade de remanescentes, esses modelos tendem a virar verdadeiros unicórnios no futuro e quem sabe até valorizar-se, contrariando os céticos alfistas que não consideram os "Alfa-Fiats" como reais possibilidades do amanhã. Nas fotos o carro parece bom, quiçá merecedor dos 25 mil, atentem no entanto para o erro na denominação do modelo.
http://carro.mercadolivre.com.br/MLB-628734759-alfa-romeo-164-elegance-top-1999-_JM#redirectedFromParent

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Uma Análise sobre Veículos Clássicos ou Colecionáveis em nossa atual realidade

Às vésperas de 2015 me dei conta que foi justo há 15 anos, portanto na virada do milênio, que os veículos colecionáveis no Brasil (clássicos e futuros clássicos), ganharam definitivamente um novo status. Entraram à partir daí para o gosto de legiões de fãs, pouco à pouco a cultura antigomobilista enfim se popularizou.
Até a década de 1970, praticamente não existia o hábito no país, colecionar carros era coisa de família Matarazzo pra cima, então surgiram precursores como os paulistanos Og Pozzoli, Roberto Lee (Filho do engenheiro visionário Fernando Eduardo Lee) e um pouco depois Flávio Marx, tidos como excêntricos, que cultivaram o gosto e vislumbraram a importância da preservação de automóveis que certamente teriam outro destino, aproveitando inclusive a baixa demanda de mercado à época, para arrematar a preços relativamente módicos, modelos que muito tempo depois se valorizariam muitíssimo, como alguns Vintage (1919-1930), Post Vintage (1930-II WW) e Classic Cars (Post II WW).
Nesse cenário, ocorrem fatos históricos como as crises do petróleo, sendo a última no início dos anos 1980, afetando diretamente qualquer interesse por veículos que não fossem estritamente funcionais. Clássicos V8 americanos foram por aqui desprezados e dizimados, tendo porém anos mais tarde um despertar muito maior do que qualquer imaginação pudesse aventar.

Com a abertura dos portos em 1990, após 25 anos de mercado recluso, o foco (daquele cidadão que seria o futuro entusiasta antigomobilista) no início dos 90 parecia realmente rondar a possibilidade de comprar um carro 0km para uso com a chancela tributária dos automóveis ditos populares no governo de Itamar Franco (pagavam menos imposto os veículos de até 1,0 litro implementados no mercado por força da lei, assim como a "exceção" o VW Fusca 1,6 litro, reeditado entre 1993 e 1996 à pedidos do Palácio do Planalto) e no degrau acima os de qualidade superior, como os importados acessíveis que inundaram nosso mercado com muitas opções à partir de 1993.

É difícil determinar um verdadeiro estopim para o início do "Antigomobilismo em Massa" por aqui, na economia tínhamos o florescer do plano real, o primeiro alento nesse sentido há décadas, no cenário mundial, saíamos finalmente do status de país subdesenvolvido e entrávamos no de país "em desenvolvimento".
Internet, globalização, possibilidade de importação de peças e taxas cambiais convidativas, foram sem dúvida outros importantes fatores nessa estória. Pouco à pouco, a imprensa automotiva, de olho naquilo que se passava mundo afora, abria segmentos para esse novo nicho, noticiava e conclamava para os eventos já existentes mas que tinham abrangência restrita até então. No final da década de 90, já existiam não só artigos como mídias específicas sobre o hobby, foram os anos derradeiros das boas ofertas por veículos até aí esquecidos mas que em breve seriam disputados ferrenhamente tanto pelos colecionadores tradicionais como pelos milhares de novos pretensos apreciadores ou acumuladores de veículos antigos.

Em mercados consolidados e de larga tradição na preservação histórica e de costumes, incluindo o antigomobilismo, como EUA, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Japão dentre outros, existe um relativo fluxo que praticamente determina oferta e procura, fazendo com que existam verdadeiras "tabelas" no que se refere a preços de veículos clássicos, dependendo de seu estado, originalidade e procedência.

Por aqui, ainda estamos amadurecendo nesse sentido, após grandes altas em preços gerados por fortes demandas porém inconsistentes, observamos não só estagnação como certo recuo nesse mercado entre 2008 e 2014. Fora fatores econômicos, existiu certo fenômeno de paralisação, em função de que boa parte dos então "novos" colecionadores predispostos a se estabelecer no hobby, já haviam adquirido suas pretensões e pelo menos a curto prazo não tencionariam por novas aquisições, de fato o carro antigo bom e barato sumiu das "prateleiras".

Em paralelo, seja por necessidade, seja por puro esporte, a prática da boa restauração, mesmo com graves problemas de mão de obra e obtenção de peças, ascendeu. Para marinheiros de primeira viagem que muitas vezes pularam ao mar antes do atracar, descobriu-se o quanto é caro e demorado devolver a um veículo todas suas características de origem. Muitas vezes, esse fator aliado à escassez de determinados modelos fez com que preços disparassem. Lembram dos tais V8 americanos montados por aqui outrora desprezados? (Leiam-se os "muscles" Ford Maverick e Dodge Charger). Pois bem, de tanto subirem de preço, num dado momento, foi voz corrente no meio escutar que com os valores pedidos, muitas vezes alcançados, daria pra comprar os legítimos "muscles americanos", não só aqueles que aqui aportaram desde sua fabricação como a nova prática permitida por lei, a de importar tais modelos desde que com mais de 30 anos de produção.

Realmente muita coisa desproporcionada apareceu, por outro lado, analisando o custo de restauração, nem sempre os valores requisitados por modelos fielmente restaurados são realmente caros. Como o mercado até hoje (para a maioria dos modelos onde a oferta é maior ou tende a equilibrar-se com a demanda) não paga o chamado custo agregado, muito menos o custo financeiro, acaba sendo bom negócio comprar carro já restaurado. O grande problema é que achar um carro bem restaurado à venda é quase tão difícil quanto um unrestored.

É bom esclarecer que existe uma quase teimosia desse mercado ainda em formação em partir para o caminho mais fácil, no caso o mais barato, a prática de comprar carros incompletos, mal restaurados ou mal conservados e fazer "aos poucos". Na maioria das vezes, o incauto (ou não), percebe que o valor despendido sobre aquela "base ruim de restauração" já supera o valor daquilo que se pede por um modelo imaculado; com a diferença que no caso dele, jamais se chegará a um ponto à contento. Geralmente são essas pessoas que torcem o nariz ou fazem verdadeiras apologias ao "quão absurdo" seria pagar valores pedidos por esse ou aquele automóvel. De uma maneira geral creio que na realidade essa é justamente a baliza que possuímos. Num mercado ainda não consolidado o bastante, fazer o comparativo entre o valor requisitado por um veículo não só com os demais exemplares disponíveis mas principalmente com o custo de restauração. Lembrando que nesse caso, profundo conhecimento e análise sobre o modelo avaliado tem de ser feito, bem como custos de manutenção e restauração.

Havendo essa convicção, tenho certeza que muitas análises podem sofrer profundas mudanças ao se descobrir que o dito caro pode não ser tão caro assim. Contudo, geralmente aconselho pessoas a adquirirem veículos que realmente lhes represente algo, evitar compras por impulso e ter em mente que com exceção feita a algumas poucas raridades, a grande maioria dos automóveis, nunca foram e nunca poderão ser categorizados como investimento. Se pagam sobre o trabalho ou satisfação que exercem sobre seus proprietários, medidas nem sempre factíveis.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Verzegnis

O calendário italiano das provas de subida de montanha é um dos mais interessantes da europa, em parte pelas condições topográficas principalmente nas áreas montanhosas da península que somam mais de 1/3 do território.

Durante o ano são 12 provas em localidades diferentes, uma das mais interessantes no aspecto de peculiaridade é a etapa da Comune di Verzegnis (Provincia di Udine - Friuli). Situada no extremo nordeste do país, a região do Friuli-Venezia Giulia é conhecida por paisagens belíssimas e contrastantes que fazem desse tipo de prova automobilística, geralmente "contra o relógio", das mais lúdicas e técnicas ao mesmo tempo. Os carros são divididos em categorias conforme tipo, época e capacidade cúbica do motor, enumeram-se no regulamento um sem número de subgrupos, contudo ver carros de competição com mais de 20 anos como as Alfa 155 DTM nuove di zecca, são uma atração por si só.
http://www.acisportitalia.it/CIVM/informazioni-risultati/889/Verzegnis---Sella-Chianzutan

Mapa das Regiões Italianas
 
Região de Friuli-Venezia Giulia
 
Provincia di Udine (Verzegnis em vermelho)
 
Comune di Verzegnis
 
Um pouco da 45º edição
 
On board e de Sport Protótipo
 
 

Nostalgia di Autodelta

 
Vídeos de época mostrando os anos dourados da Autodelta:
 
 

sábado, 11 de outubro de 2014

Humor Alfístico


Pelos quatro cantos do mundo encontramos entusiastas pela marca, inclusive em locais aonde a Alfa Romeo sequer estava presente no mercado em sua melhor fase. Achei genial esta charge húngara que se utiliza da referência do filme "Drive", o resultado é bem engraçado.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Filme indicado para Alfistas

Filmado em 1976 teve sua estréia 1 ano depois, produção e direção de Sydney Pollack. O drama romântico se passa à margem da ocupação de seu protagonista, vivido pelo mais do que festejado à época Al Pacino. A película se utiliza acertadamente de imagens reais do campeonato mundial de F1 daquele ano com pequenas inserções aonde o ator se faz presente, guiando pela Brabham BT 45 Alfa Romeo 115-12.
Em inúmeras cenas, José Carlos Pace, um dos pilotos da equipe, atua como dublê de Bobby. O filme não é exatamente focado no assunto automobilismo, renegado pela crítica inclusive, mas vale pela fotografia impecável, locações idem, principalmente ente Suíça e Itália. Além disso, como presença constante, o veículo do personagem: uma belíssima Alfetta GTV.

 
 

domingo, 8 de junho de 2014

LANÇAMENTO: MINI COOPER

Eis o novo Mini Cooper, disponível no mercado brasileiro à partir desta semana. Recheado de tecnologia, esta nova geração do ícone demonstra claramente a tentativa da manutenção das qualidades do veículo, aliada à inclusão de um objetivo cercando aquilo que antes podia ser fator de exclusão para a sua compra. Ou seja, já não é de nicho tão específico, agradará também a quem espera dele um comportamento mais civilizado, sem fatores limitantes de uso como por exemplo a suspensão demasiadamente firme.

Sempre achei o projeto do Mini dos mais felizes na categoria da "releitura", principalmente os de 2ª geração(acima). Ao contrário de outros conhecidos exemplos de carros com motores em locais opostos em relação às versões originais, que também se situam em faixas premium do mercado, o Mini contrasta menos à sua origem. Do outro lado do oceano, temos vários exemplos de muscles reestilizados mas quase sempre com simplificação estilística e de acabamento, para em parte, torná-los viáveis. 
Por outro lado, sempre houve no projeto de Alec Issigonis, não só uma maneira particular de se projetar com sua eficiente arquitetura do motor transversal e tração dianteira, aproveitamento de espaço e distribuição de massas (copiada posteriormente por muitos), como busca pela eficiência dinâmica em âmbito desportivo desde o início na BMC. Na somatória, creio ser o Mini-BMW o melhor exemplo de releitura com caráter preservado que já existiu na indústria automobilística.

Não há dúvida que houve uma expressiva atualização do modelo no que tange à gadgets, habitabilidade, conectividade e propulsores. Mas uma coisa é certa, o Mini já não é tão "Mini", não só pelo ganho na musculatura da carroceria para abrigar os incrementos estruturais mas também pelos menos desejáveis balanços, especialmente o frontal, aonde a projeção entre o eixo e o parachoque é substancialmente maior. Embora equipado agora com amortecedores adaptativos que tornam  a condução mais acertada no dia a dia de centros urbanos mal pavimentados, já é voz corrente pela imprensa especializada que parte do "go kart feeling" se perdeu, seja pela adição de peso na dianteira (são 50kg a mais entre a versão 2.0 e a 1.5 litro), aumento de entre eixos e também pela insonorização da cabine. A verdade é que andar de Mini para um entusiasta automotivo é imcomparável, não é melhor ou pior que outros carros esportivos, é simplesmente único. O baixo centro de gravidade aliado a um "eixo pivotante virtual" (na verdade é a excelente suspensão McPherson/Multilink e a equalitária distribuição de massas que fazem isso) no meio do carro, que em curvas feitas no limite te deixa escolher entre escorregar de frente ou traseira conforme a pressão que se exerce sobre o pedal do acelerador é algo sublime, pude experimentar no Cooper S com o 1.6 litro de 184 cv. Gostaria muito que esse legado não desaparecesse na evolução do carro, vamos descobrir em breve. No entanto, alguns colegas já adiantaram que em suas impressões, embora o dois litros mostre um fôlego impressionante, em termos de comportamento em curvas o 1500 mais leve e equilibrado preserva com maior fidelidade a ancestralidade do carro.

Tenho a percepção de que algo na harmonia do design da versão anterior não se preservou, principalmente no detalhe dos contornos de paralamas que fazem as rodas tanto 16" como 17" parecerem menores do que são, mais do que isso, ainda num certo excesso de volume da frente que teve seu ângulo de inclinação atenuado e espichado. 



Ressalva feita à extinção do velocímetro analógico na polêmica posição ao centro do painel, que particularmente gosto, e também ao espaço para as pernas no banco traseiro, que mudou muito pouco, de resto são só boas surpresas. O carro está mais refinado e bem acabado, não que o acabamento do anterior fosse ruim, alguns botões foram para os lugares certos como os dos controles de vidros e trava que agora estão nas portas. Já o botão de "start" desceu, ficando na linha de comandos à frente do câmbio, numa bonita forma de chave como nos carros de competição, ao centro em vermelho. O problema da extinção do velocímetro analógico que identificava o carro é que nas versões mais simples, aquela grande circunferência no centro do painel, desprovida da central multimídia e sem bluetooth, parece um tanto quanto tola, mostrando apenas as informações básicas do rádio. Já na Cooper S, a multifuncionalidade gerida pelo botão rotativo no console central à moda "idrive" da Bmw se faz válida nos diversos recursos oferecidos com destaque para o GPS. Uma auréola multicolorida é oferecida como opcional em torno da central. Sua função é demonstrar a evolução dos giros do motor, velocidade de ventilação ou batidas do excelente sistema de som Harman-Kardon. Ainda como novidades, surge à frente do eixo do volante o head-up display com as principais informações ao condutor e também o sistema de controle da suspensão adaptativa, que utiliza amortecedores eletro-hidráulicos em todas as versões. Por meio da inversão do fluxo hidráulico oferecem carga e curso diferentes, em modo Comfort o veículo absorve com mais facilidade as irregularidades do piso, em Sport ganha a agressividade de comportamento compulsória aos modelos até então conhecidos. 


Os detalhes das motorizações oferecidas são o estreante 1500cm3 tricilíndrico turbo com injeção direta e sistema duplo Vanos (controle variável dos comandos de válvulas), com 136cv a 6000rpm e 22,5Kgf.m já as 1250rpm. Tem 1Kgf.m de overboost acionado pelo kickdown e como aliado o já conhecido e excelente câmbio automático sequencial de 6 marchas. O controle de tração  presente na versão antiga ganha agora a companhia do bloqueio de diferencial, já que o eixo dianteiro tem a imcumbência de transportar maior carga. No Cooper S, sai o leve 1.6 turbo de 184 cv e entra o bem mais pesado tetracilíndrico de 2000cm3 turbo e seus 192cv a 6000rpm, além dos respeitáveis 28,5Kgf.m no platô 1250-4750rpm, podendo chegar a incríveis 30,6Kgf.m com a "pressão extra" solicitada. Nessas versões custam respectivamente R$ 90.000,00 e R$ 125.000,00. A versão Exclusive do Cooper S continuará existindo, oferecendo a interessante combinação do motor mais forte num pacote desprovido de GPS, Teto Solar e som Harman-Kardon, por mais digeríveis R$ 114.000,00.
Para breve e numa faixa de preço mais convidativa, estreará o Mini One com o mesmo tricilíndrico do 1500 porém com sua capacidade cúbica diminuída para 1198cm3 com 101cv, mas que deve no entanto ter comportamento bem mais entusiasmante que seu antecessor aspirado. Um pouco depois surgirá a versão top John Cooper Works com estimativa de 250cv de potência. 

domingo, 10 de novembro de 2013

Cinquentenário em Sant´Agata Bolognese

Um dos vídeos do concurso de elegância que reuniu na sua localidade de origem, fãs da Lamborghini que comemoraram 5 décadas da existência da marca.

Alfa Giulia Sprint GT - Cinquentanni

Há cinquenta anos, saía das pranchetas de Giorgetto Giugiaro, ainda trabalhando nos estúdios Bertone, os traços de um dos mais emblemáticos esportivos italianos dos anos 60.